31/12: crônica de uma viagem ao balneário Rincão

(Mhanoel Mendes)

31 de dezembro. Quatro da tarde. Estou parado dentro do meu carro que de tanto se arrastar num frenético para/acelera, para/acelera pela SC 444 desde o centro de Içara, acabou estragando o condicionador de ar. Como meu carro tem cor escura, a temperatura aqui dentro deve estar próxima dos 40 graus Celsius. Ali em cima dá pra fritar ovo, a dá.

Desloco-me ao balneário Rincão. Refaço: tento me deslocar. Estou aqui desde as 14h; embora trabalhasse até às 12h e logo em seguida passasse no marcado abarrotado de gente, não consegui me desvencilhar desse trânsito. Estou nesta viagem há pelo menos três horas. Parece que todos tiveram a mesma ideia que eu. Invejosos!

Abano-me. Sinto que a pressão baixa. Nem mesmo o suco de butiá, que eu adoro, resolveu. Sequer uma torneira de água da Casan encontro.

Eu sei que não pode, mas coloco a minha mão para fora do carro, numa tentativa descontrolada de me refrescar. Em vão. Não tem como não me lembrar da mesma situação vivida por mim no ano passado, e no ano anterior ao ano passado, e no anterior ao anterior do ano passado… Raiva, ansiedade são conceitos ingênuos perto que sinto. Na verdade não existe uma palavra que conceitue meu sentimento neste momento.

Escoro minha cabeça no banco dianteiro, deixo minhas mãos caírem sobre o colo, relaxo. Ideias turvas me veem à cabeça, clareando fatos vividos num passado recente.

Vejo-me na virada de anos deste ano chegando em casa perto da meia noite e um grupo grande de pessoas à beira mar festejando. Oferendas, canções, abraços. Em seguida me vem a temporada com as ruas alagadas, as filas nos finais de tarde de domingo em direção a Criciúma, a odisseia contra os cães e carros a beira-mar.

Impossível não lembrar do frenético movimento nas livrarias e papelarias para compra dos materiais escolares. Depois vem o carnaval e parece que pode tudo. Onde o álcool e a droga, aliado a um grande inimigo, que é o volante, ceifam vidas promissoras deixando lacunas irreparáveis.

Vem a páscoa e o coelhinho que bota ovo de chocolate. Depois da páscoa, vem o segundo movimento do comércio no ano, que é o dia das mães. Se você ama, você presenteia, dizem. Mas se eu não tenho dinheiro para comprar o presente para minha mamãe é porque eu não a ama, pois quem ama dá um jeito.

Depois da pascoa, vem o segundo dia de maior movimento no comercio, que eh o dia da mães, o segundo domingo de maio. Quem da presente ama, insistem em dizer alguns comerciais que não entendo como são veiculados.

Acordo com a buzina do corro de tras. Posso avançar mais uns 8 metros adinte. Volto a escorar minha cabeça, desta vez na janela, a ponte de deixar a testa pra fora do carro. Pelo menos tem um ventinho que vem dos carros que não sei por que vao em direção a Criciuma.

Sinto baixar pressão e aquela energia baixa e pensamentos turvos retornam.

É junho, eh São João. Apesar do calor que faz agora, lembro do frio que nos obriga a andar arcados e a nos recolher.

Logo logo vem o segundo domingo de agosto e o dia dos pais.
Outubro eh o dia das Criancas.

Como num passe de magica, chegou o natal. Dezembro…que nada, hoje em dia os shoppings e o comercio em geral já contratam o papai Noel e fazem as decorações de pinheiros e neves, em plena primavera no hemisfério sul.

Sinto um solavanco no meu carro e acordo assustado. Olho no retrovisor e vejo o motorista de tras, o mesmo que buzinou antes, gesticulando dentro da sua geladeira ambulante. Olho pra frente e percebo que posso deslocar meu carro mais uns cinco metros.

Antes de fazer isso, tomo o cuidado de consultar o relógio: 17h26.

Meio sonolento, ligo o carro, engato a primeira e me desloco por mais 5 metros, a minha direita esta o deposito central do Giassi Supermercados. No radio do carro ouco Elis Regina cantando “Como nossos pais”, de Belchior: “Apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”…


Mhanoel Mendes, psicologo, palestrante, consultora nas areas de “Ecossustentabilidade” e “Promocao de gente”.

21 pensou em “31/12: crônica de uma viagem ao balneário Rincão

  1. How….how…how….Realmente uma viagem na viagem.

    E assim robotizados repetimos, repetimos inconscientes, as mesmices.

    Hellooo!!! Desperta, acorda para o que realmente vale a pena!

    “Viver….e não ter a vergonha de ser feliz….cantar e cantar…a beleza de ser um eterno aprendiz…”

    Tua sempre…

    DE

  2. Então li a crônica, gostei acho que entendi o que sa passou nessa viagem, pois descrita assim com detalhes, me levou junto. Parece assim mesmo que repetimos coisas velhas de jeitos novos. mas pensando em tudo isso, aindo me vem uma certeza de que eu gostaria de viver aqui na terra uns 500 anos, acho que assim poderia aprender tudo e tudo viver, mas ja sabedor de quando se passem esses 500 anos, partiria com saudades de tudo e de todos, ansioso por ter nova oportunidade de mais dias viver, quem sabe em outra parte do universo, de uma outra forma, mas gostaria de estar a cada dia mais consciente do todo.

  3. Oieee!!!
    Recordar é viver. Me reportei com teu conto, em momentos semelhantes vivenciados hehehehe…
    Muito Bom!
    Abraço, Magda.

  4. Que viagem amigo!
    Como se diz no Rio Maina: viajou na Maionese.
    Algumas pessoas caem nessa armadilha conceitual ligada a um comportamento padrão e ainda chamam de férias. Há aqueles que trabalham doze meses para um “deescanso” uma “férias” outros acreditam que vale o sacrificio para um mergulho no mar.
    Vamos para o Rincão bicho, toda Criciúma está lá e eu não posso ficar de fora.
    Muito bom irmão, estamos juntos até nas idéias.

    Isso é assim apra mim.

  5. é phoda ser normótico! hehehehe Ainda bem que não somos, Grande Mestre Manoel!

  6. É Caro amigo Manoel…

    Tu reclamas do trajeto de 30 km entre Criciuma e Praia do Rincão.

    Eu vivi por muitos anos (no mínimo 4 horas indo até para 6) o trecho entre Porto Alegre e Tramandai, por Santo Antônio da Patrulha, antes da Free Way. Eram 130 e trinta km em pista simples. nessa época aqui se ia em 30 minutos até o Rincão.
    São tempos modernos e o problema todo pode ser explicado no dia da eleição…. Mas….´Não é só no voto que se resolve. Acho que o problema tem uma questão mais simples para ser resolvida primeiro. Está na Escola e na Família que hoje tem muita interferência…. Vejam bem … se estas duas entidades fossem bem organizadas os outros problemas seriam simplificados…
    As estradas teriam fluxo; a velocidade de deslocamento seria normal; o respeito seria sempre dada aquele que merece; as estradas seriam construidas para atender as necessidades….
    Será que iriamos tantos às praias ao mesmo tempo???????????

    Abraços a todos

  7. O trajeto Criciúma-Içara-Rincão não é uma viagem. É um carma.

    Abç

    Murialdo

  8. É companheiro…
    Descrevesse certinho o que realmente aconteceu comigo muitas vezes… Amo minha vida, e sempre amei, sempre comento que meu objetivo é viver 120 anos, mas desde cedo parava para refletir sobre a vida em busca de respostas, será que vale viver tudo isso, como robôs? Todos os dias as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, na mesma rotina? Em 2001 com 18 anos recém formado, descobri em mim que tudo é relativo, assim mesmo como Einstein dizia, o tempo, nossa vida, tudo é relativo. E descobri que muitas vezes seguimos uma rotina de trabalho, de vida, mas dependendo da ótica que enxergamos e como encaramos é que esta rotina se torna penosa ou não… Aprendi a olhar para o lado e ver que por mais que sejam as mesmas pessoas, podemos todos os dias descobrir nessas mesmas uma diferente, talvez num dia ela se torne abusada, chata, feia… Mas no outro dia encontramos a mesma, só que simpatica, feliz, e linda… Quantas vezes olhamos as estrelas a noite, ou notamos os passáros a cantar? Quantos dias olhamos para o lado e notamos pessoas diferentes a espera de um simples sorriso para mudar seu dia? Apartir de meus 18 anos passei a estar no mesmo trajeto muitas vezes, de Criciúma ao Rincão, e comecei a notar as pessoas ao meu redor, minha esposa, meus pais, meus irmãos, amigos, ou as vezes até desconhecidos de fora do carro, e notei que tudo muda, tudo pode ser novidade, qualquer que seja o gesto ou a ação pode mudar o rumo de tudo… A Vida é perfeita, e a rotina torturante está dentro de nossas mentes, e não ao redor de nossas cabeças…
    Se eu pudesse escolhergostaris de viver não somente 120, mas 200 anos, mas independente disso quero viver intensamente, pois até o tempo é relativo…

    Fraterno abraço deste jovem Buscador!!!

  9. Entendo seu drama, pois já passei por alguns desconfortos ao longo dos anos, mas ir para Rincão durante veraneio é um prazer para mim, pois lá veraneio junto à minha família e amigos, onde o sacrifício é compensador. Conviver com estes atropelos não é nada saudável, porém inevitável.
    Abraço, muita luz e graça do Senhor.
    Robson Izidro

  10. Estimulante (hehe). Eu e o Vilmar sempre fugimos dos aglomeros. Acho bom eu fazer as compras de Natal na próxima semana e guardar dindin para levar toda a família para o Oikos nas festas de fim de ano. (hehe). A propósito: tem algo programado? Vou ver a agenda. Bjão Teacher.

  11. Sr. Mhanoel,

    Parabéns pela crônica. O sofrimento no trânsito para o final do ano de 2011, até o Balneário Rincão, será dobrado. Aguardemos a duplicação da Rod. Deputado Paulino Búrigo (SC – 444).
    Obs. Caminhando chega-se ao Balneário Rincão.

  12. Existem viagens longas em caminhos curtos e no meio deles muitos surtos q deixamos o dia a dia e a correria pensar q são nossos donos e infelizmente às vezes são!

  13. Mestre…

    Cada palavra sua e um ensinamento, até quando não se faz nada, você ensina a meditar no tempo. Algo que poucos tem hoje em dia.
    Parabéns pela crônica. Como seu Fã e ex-aluno.

  14. Meu amigo!
    Faz 23 anos que não veraneio no Balneário Rincão, mesmo residindo próximo, em Criciúma. Só vou no Rincão quando participo de algum evento no qual sou convidado. Não gosto de agir com pouca aducação e desrespeito ccom as pessoas que me querem bem. Aquilo deixou de ser balneário. Vergonhosa a situação que os moradores e turistas encontram lá: muito lixo, ruas mal cuidadas, falta de estrutura, carência de locais atrativos e etc. Quem tem residência naquele balneário ou costuma frequentá-lo no verão, que me perdoem, acho de muito mal gosto. Temos que admitir: aqui no sul somos muito atrasados nas questões turísticas. Nosso turismo se baseia, apenas, em compras, gastronomia (só para estufar a barriga) e bailes de debutantes.
    Tenho inveja da população da capital, do Vale do Itajai e do norte do Estado. Eles estão 30 anos na nossa frente. Não sejamos orgulhosos, temos que admitir esta triste realidade. O sul é a região mais pobre de Santa Catarina. Faça como eu, vá para outras praias mais bem estruturadas e cuidadas. Afinal, temos que começar a ter bom gosto. A única esperança para aquele balneário é uma gestão autônoma. Que venha as boas idéias quando for estabelecido o governo municipal do Rincão .

    Forte Abraço!

    Aguinaldo Augustinho – Escritor

  15. Prezado colega, pense no prazer de ter produzido tal pérola. Abençoada demora não é? Parabéns por viver entre tantos afortunados e com tamanha eloquencia nos levar a reflexão.

  16. Mano El, que exemplo hein!? Lembrei do mormaço e do asfalto tremendo no horizonte… sensações tão indesejáveis como o auto engano e os pensamentos com padrão repetitivo. Viva a plenitude. Uma vida de kensan!

  17. Olá! Sabe que vivi essa vida muitos anos? Mas ñao eram 30, eram 600Km para chegar na praia e sofrer todas filas que podia ter. Mudei… hoje ñao faço mais isso, ñao me importo com datas pre-estabelecidas, ñao me preocupo em presentear em tal dia porque é dia disso ou daquilo. Mas sabe o que acontece? Fico presionada e como se devesse respeitar todos os padroes estabelecidos, porque os que convivem comigo respeitam. E daí, que fazer? Manohel`, você podia me dar uma dica? Já estao achando que ñao estou normal. Será que devo voltar aos velhos hábitos? Abr

  18. Olá Mano!

    Essa sua crônica me faz refletir sobre quantas “passagens” temos em nossa vida como a viagem para Balneário Rincão!….

    Precisamos refletir em nosso interior sobre nossos valores….. e medir o que realmente vale a pena fazermos de nossas vidas!!

    Abraços!

    Saudades!

  19. Gostei da reflexão. Mas tudo depende de como a gente vê as situações da vida. Eu ia aproveitar para falar e cantar. hehehe. ADOROH!
    Abraços fica com Deus!

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